Vasco Araújo: Demasiado pouco, demasiado tarde
25 abril a 27 setembro
Curadoria Nuno Faria
O
trabalho de Vasco Araújo (Lisboa, 1975) tem incidido de forma
sistemática sobre a história do colonialismo europeu e sobre os seus
efeitos tragicamente duradouros, do ponto de vista das dinâmicas
relacionais de poder e de submissão entre homens de lugares e culturas
diferentes. Após décadas de silenciamento, o
período colonial tem sido objeto de um escrutínio crítico abrangente e
consistente, com origem na academia mas também no campo das artes ou da
literatura. Contudo, em Portugal, aquilo que terá mudado com a presente
geração, que surgiu na década de 70 e depois, é um interesse que tem
origem em inquietações também de ordem biográfica, que se ancora em
vivências pessoais e que reage a um ensurdecedor silêncio e a uma
prolongada amnésia que marcaram e ainda marcam a memória desse período
que tantos traumas deixou por tratar. De facto,
aquilo que torna particular a investigação do artista em torno desta
temática é o seu interesse nas relações domésticas, íntimas, não
confessadas, entre-muros, à volta da mesa e na cama - relações tanto
mais problemáticas, e consequentemente difíceis de circunscrever, quanto
difusas, turvas, que misturam o exercício de poder, de controlo e de
domínio com uma tessitura de relações humanas, de ordem afetiva ou
sexual. O artista traz para o seu terreno de
investigação ferramentas e dados usados e recolhidos por outras
disciplinas, tais como a história, a antropologia, a sociologia, para
construir narrativas que se materializam em vídeo, escultura, pintura e
fotografia. A exposição, produzida especificamente para o CIAJG, cruza
diversas fontes, visuais ou de texto, recorre à história oral ou de
proximidade, à literatura, ao património visual, da pintura de história à
história da fotografia. Vasco Araújo constrói um
discurso plural, sobrepõe planos de representação, o texto à imagem -
não tem pudor no uso das palavras, das imagens ou dos objetos, faz-nos
confrontar, por excesso e por defeito, com as nossas escolhas, as
omissões, a preguiça da linguagem que usamos no quotidiano, com anos de
auto-censura, com o adiamento de um exame de consciência, a sós, perante
nós próprios. Afinal, a história do colonialismo implica-nos, fazemos
parte dela por herança, de memória, porque ouvimos falar, porque a
vivemos ainda no dia-a-dia, por imperativo ético. Com
a exposição individual de Vasco Araújo, Demasiado pouco, demasiado
tarde, o CIAJG continua e aprofunda a sua vocação de perscrutar e
revisitar, sob um ponto de vista simultaneamente poético e crítico,
empático e distanciado, as tensões, os desejos, os afetos ou as
angústias que os objetos corporizam e transportam e aquilo que revelam
dos homens e da história que construímos.
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