Itinerâncias: CAI - Centro de Arte e Imagem - Galeria do Instituto Politécnico de Tomar
Carlos Relvas: um homem tem duas sombras
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Itinerâncias: CAI - Centro de Arte e Imagem - Galeria do Instituto Politécnico de Tomar
Carlos Relvas | Um homem tem duas sombras
Paisagens, (auto)retratos, objetos e animais
13 de outubro 2017 a 14 de janeiro 2018

A presente exposição é uma adaptação daquela que, organizada em colaboração entre o Centro Internacional das Artes José de Guimarães e a Casa-Estúdio Carlos Relvas, inaugurou em abril de 2014 em Guimarães. Aborda o trabalho em fotografia de Carlos Relvas (1838-1894), procurando mostrar a singularidade de uma obra que, na segunda metade do século XIX, surgiu como um clarão no contexto da eclosão da fotografia em Portugal e na Europa. A obra de Carlos Relvas incorpora uma dupla descoberta: da própria fotografia e do mundo — duas realidades simultaneamente íntimas e estranhas uma à outra. Assim, podemos dizer que Carlos Relvas explora, como dois vasos comunicantes, a imagem da realidade e a realidade da imagem: utiliza a câmara para captar vistas do entorno, essa realidade sempre transitória e impermanente, aprende e desenvolve processos técnicos que lhe permitem fixar e revelar essas imagens. Mas, mais importante ainda, define e constrói a sua perspetiva sobre aquilo que o rodeia, constituindo-se, a partir daí, como indivíduo no mundo — a fotografia é uma forma de filosofia, de procura de conhecimento. A exposição pretende dar a ver o universo autoral de Carlos Relvas à luz da contemporaneidade onde, apesar da paralaxe temporal, pertence por vocação. Constitui-se seguramente como um dos mais fascinantes e obscuros casos de estudo do panorama artístico em Portugal e pertence por direito ao campo das exceções. Nascido na Golegã em 1838, o autor aí desenvolve a sua atividade criativa entre 1862 e a sua morte, em 1894. Durante esse período concebeu e acompanhou a construção de dois estúdios — o segundo pontifica, ainda, como um dos mais notáveis exemplos arquitetónicos de estúdio fotográfico - e desenvolveu uma prática singular no campo da fotografia, pautada pelo desenvolvimento de inúmeros procedimentos técnicos e por uma sistemática e obsessiva busca em torno das possibilidades da imagem. Carlos Relvas desenvolveu uma obsessiva atividade em estúdio, sobretudo, mas também ao ar livre, tendo viajado no interior do país ou pelo estrangeiro. Interessou-se pelos géneros herdados da pintura — retrato, paisagem e natureza-morta —, mas abordou também subgéneros mais excêntricos, como a fotografia de animais, em contexto de estúdio ou ao ar livre, ou a fotografia de nuvens. O cenário, que desenvolveu abundantemente, é um dos elementos centrais do seu trabalho, configurando uma fértil e perturbadora dialética entre o campo da imagem e o fora de campo. Para preservar e revelar esse traço, foi decidido imprimir a totalidade da chapa fotográfica, apesar de sabermos que as imagens eram posteriormente alvo de reenquadramento. Finalmente, a prática do autoretrato, constante e multifacetada, dá-nos, à imagem de um Rembrandt ou de um Warhol, a exata medida da autorreflexividade da obra de Relvas, plenamente consciente do seu lugar enquanto autor.

Curadoria Nuno Faria, Luís Pavão