O CIAJG reúne peças oriundas de diferentes épocas, lugares e contextos em articulação com obras de artistas contemporâneos, propondo uma (re)montagem da história da arte, enquanto sucessão de ecos, e um novo desígnio para o museu, enquanto lugar para o espanto e a reflexão. O ciclo expositivo que agora se inicia marca o lançamento da programação regular do CIAJG para 2014. Nestas exposições convivem artistas de diferentes gerações, que partilham processos e abordagens, nomeadamente ao nível da produção da imagem, já não entendida enquanto original mas realizada por contacto ou por transferência, a partir de uma matriz, de forma indireta ou em negativo. Contacto, no duplo sentido do termo: como abertura ao outro, ao estranho e ao diverso e como impregnação, porosidade, contaminação ou mestiçagem.
21 janeiro a 13 abril
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José de Guimarães ∙ Provas de Contacto
Do stencil ao digital: processos de transferência da imagem
21 janeiro a 13 abril
Curadoria Nuno Faria
Esta exposição revela um extenso segmento do trabalho de José de Guimarães (Guimarães, 1939) mal conhecido e de grande relevância para o entendimento da obra do artista, que cobre um arco temporal de cinquenta anos: um conjunto muito diversificado de obras que dão corpo a uma incessante produção de imagens realizadas por transferência. Seja em torno de métodos tradicionais da gravura, seja de práticas menos convencionais, como o stencil, José de Guimarães desenvolveu desde o princípio dos anos 60 até aos dias de hoje uma incansável pesquisa que concilia experimentação material, rigor formal e um vocabulário de formas que permanentemente convoca a mestiçagem como conceito central da sua obra. O título da exposição - Provas de Contacto - é programático e operativo. Aqui, prova(s) é uma palavra para ser lida em duplo sentido: de tiragem, de repetição mas também no sentido da prova jurídica, de evidência. Por seu turno, contacto, deve ser entendido também em duplo sentido: imagens que se formam por contacto físico, pelo toque; mas ao mesmo tempo, o contacto que significa a busca do outro. Trata-se, assim, de uma exposição que não só reúne um conjunto muito alargado de técnicas de produção de imagem por transferência, como coloca ênfase na dimensão iminentemente processual, em detrimento do lado formal, do trabalho do artista. Para José de Guimarães as formas não são jamais um fim em si mesmas, mas antes um conjunto de signos que o artista articula enquanto linguagem - repare-se nos diversos alfabetos que constituiu, desde o alfabeto africano, apresentado na sala 2, até ao extenso conjunto de figuras estampadas a negro sobre a folha branca, a que chamou negreiros. Abordando a prática da gravura e de processos derivados, a exposição, de cariz antológico, mostra que essa prática continuada em vários momentos do percurso do artista se revelou estruturante, quer enquanto processo de conhecimento, quer enquanto campo operativo de experimentação. Em Provas de Contacto destacam-se os anos de aprendizagem e intensa prática inicial na GRAVURA - Sociedade Cooperativa de Gravadores Portugueses, entre 1958 e 1965, de que apresentamos dois singulares e importantes núcleos - o primeiro dedicado à representação do rosto de Cristo, a primeira imagem, obtida por contacto, o ícone verdadeiro, e o segundo, um conjunto de variações em forma de homenagem em torno da obra de Picasso; os anos em que se encontra em Luanda (1967 a 1973), marcados por uma intensa prática experimental ligada a um intenso processo de descoberta e assimilação da cultura dos povos de Angola; o período pré e pós revolucionário de 1973 a 1979, já após o regresso a Portugal, em que produz uma série de trabalhos de cariz mais político, para além de um conjunto de obras em que se evocam lugares ou universos autorais (Centro Pompidou, Rubens, etc.); e, finalmente, os anos mais recentes em que regressa à gravura com assinalável fulgor e contenção de meios e de formas, em torno do tema, recorrente no seu trabalho, dos Negreiros e Guaranis.
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25 janeiro a 13 abril
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Jarosław Flicínski | Estrela Negra
Paredes, pinturas, desenhos e objetos
25 janeiro a 13 abril
Curadoria Nuno Faria
Estrela Negra é a primeira exposição individual de Jarosław
Flicínski (1965, Gdansk, Polónia) em Portugal. Trata-se de uma
intervenção de grande escala, exemplar do trabalho que o artista tem
vindo a desenvolver em relevantes instituições do contexto internacional
da arte contemporânea: um projeto de expansão do campo operativo da
linguagem pictórica no qual se cruzam uma aguda sensibilidade à
arquitetura e uma proficiente prática de pintura sobre parede que vai
para além do quadro e se alarga à escala do espaço arquitetónico. Jarosław
Flicínski concebeu uma intervenção que é a crónica de uma transformação
pessoal. De facto, esta exposição dá corpo à vivência dos últimos
quatro anos da vida do artista, altura em que se mudou para a pequena
aldeia do Esteval, entre Loulé e Faro, no Algarve, naquele que se
constituiu como um período de radical transformação de práticas e de
hábitos no interior do seu trabalho. Assim, entre diferentes suportes e meios, passamos da enorme à ínfima escala e navegamos entre dois níveis:
-
o projeto, aqui materializado pelo conjunto desenhos, em que o artista
ensaia variações sobre formas geométricas muito simples, numa
prática de repetição e diferença, e um diversificado conjunto de objetos
recolhidos em casas ou no espaço exterior, sobretudo na praia, numa
espécie de prática arqueológica, de atenção e abertura a sinais que
chegam de longe e que se anunciam como potencialmente transfiguradores;
-
a construção, através da utilização da parede como mecanismo de diálogo
com a arquitetura do espaço, que aqui se cinde em duas tipologias
distintas: por um lado, a transposição de um desenho geométrico
orgânico, uma espécie de anamorfose que age sobre a perceção do
espetador sobre o espaço que habita, contraindo e expandindo a
geometria euclidiana da arquitetura; por outro lado, a construção de
duas pinturas murais que se destacam da parede, redefinindo o espaço,
onde se joga toda uma prática meditativa que encena um diálogo com a
história da pintura geométrica, uma espécie de exercício espiritual que é
engendrado como uma performance, para a qual o artista teve que
construir as suas próprias ferramentas. Nestas pinturas, há uma
densidade atmosférica que advém da sobreposição da tinta em várias
camadas de diferentes cores que projeta o espetador para um estado
quase hipnótico, no qual convivem diferentes dimensões percetivas.
A
última peça da exposição, uma projeção vídeo que documenta um efeito
lumínico e ótico, reverbera e ecoa com uma simplicidade desarmante a
pintura mural que o artista realizou num núcleo da coleção permanente,
uma estrela branca, desenhando, no percurso expositivo, uma espécie de
círculo ou de espiral que representa uma ideia de recomeço ou de
regresso que, afinal, ilustra na perfeição o seu recente percurso
biográfico.
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