Depois da fotografia (Carlos Relvas, Um homem tem duas sombras; Ernesto de Sousa e a Arte Popular e Inquéritos à fotografia e ao território) e do desenho (Oracular Spectacular, desenho e animismo), dedicamos o novo ciclo expositivo à interrogação da escultura enquanto disciplina que existe na fronteira entre objeto e corpo, cópia e duplo, vida e morte, função e ostentação. Com "Objectos Estranhos: ensaio de proto-escultura" e "Caminhos de Floresta, sobre arte, técnica e natureza" ensaiamos uma reflexão sobre os modos de aparecimento, expansão e sobrevivência de uma prática que, desde tempos imemoriais, constrói e anima a relação do homem com o mundo que habita.
15 de julho 2016 a 15 de janeiro 2017
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Caminhos de Floresta
Sobre Arte, Técnica e Natureza
Com Alberto Carneiro, Celeste Cerqueira, Filipe Feijão, Franklim Vilas Boas, Ilda David, Maria Capelo, Musa paradisiaca + Tomé Coelho, Reis Valdrez
Curadoria Nuno Faria
Para o filósofo alemão Martin Heidegger, de cuja obra o título desta exposição é pedido de empréstimo, a produção artística é uma forma de posicionamento do homem perante a natureza. Perguntamos aqui o que significa produzir arte. Enquanto modo específico de produção, a arte produz o quê? Estando na orla, nas margens, na confluência do mundo industrializado com o mundo natural, na obra de arte “ganha forma o próprio acontecimento da clareira do ser”. Uma forma de esclarecimento. De onde vimos, quem somos, para onde vamos? Talvez a arte trilhe um caminho que não leva a parte nenhuma; um caminho de floresta feito para nos perdemos e, na diversidade da natureza, nos reencontrarmos com a origem e os fundamentos do humano. Esta exposição reúne, assim, um conjunto de aproximações e de diálogos com uma certa ideia de natureza, enquanto tematização do diverso, daquilo que nos é estranho, e de como a podemos vir a traduzir, a compreender e a habitar.
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01 julho 2016 a 15 janeiro de 2017
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Objectos Estranhos: Ensaio de proto-escultura
01 julho 2016 a 15 janeiro 2017
Com Mestre Caçoila (pintor aos domingos) e Musa paradisiaca
Peças
das Coleções de Museu de Alberto Sampaio, Sociedade Martins Sarmento,
Museu da Agricultura de Fermentões, Venerável Ordem Terceira de São
Francisco, Associação Artística da Marcha Gualteriana, Igreja de São
Domingos e gentis colecionadores particulares
Curadoria: f.marquespenteado e Nuno Faria
A exposição Objectos Estranhos: ensaio de proto-escultura tem por objetivo reunir um amplo conjunto de peças do património religioso, popular e arqueológico da região, fazendo-as dialogar com peças de artistas contemporâneos. Através da extensa paisagem de objetos expostos – que vão desde as pinturas de Mestre Caçoila até ex-votos em cera, passando por peças notáveis de alguns dos mais significativos espólios museológicos do Concelho, como é o caso de S. Torcato, S. Francisco ou Fermentões – pretendemos celebrar a riqueza, a pluralidade e a idiossincrasia de uma terra muito densa, através não só da reunião desses objetos mas, igualmente e sobretudo, de uma plêiade de convidados que, no âmbito e no interior da exposição, ajudarão a perceber as crenças, os hábitos e rituais que organizam a vida das pessoas.
Em 2012, no âmbito da exposição Para Além da História, que inaugurou o Centro Internacional das Artes José de Guimarães, criámos um pequeno núcleo a que chamámos Objectos Estranhos: ensaio de proto-escultura. Tinha um título irónico e misteriosamente literário e reunia um conjunto de objetos de proveniência diversa que mantinham uma relação problemática com a noção de escultura. Ora porque ainda não tinham forma, ora porque eram compostos por pequenos fragmentos esparsos não tendo propriamente um corpo uno, ora porque eram o negativo, o molde de formas reconhecíveis (partes do corpo humano, por exemplo).
Hoje, exatamente quatro anos passados, voltamos a esse programa de trabalho e expandimo-lo. Por duas razões essenciais: porque esse núcleo explorava a força adormecida das coisas que, à nossa volta, estão em potência, em devir, prontas a eclodir ou a florescer e queríamos voltar a falar dessa energia que nos move e nos envolve; mas, também, porque quisemos celebrar o espírito que presidiu à implantação do CIAJG em Guimarães e juntar algumas das forças vivas (e, em alguns casos, adormecidas) que nela circulam.
A arte contemporânea é parente próxima da arqueologia. Ambas se interessam pelo aparecimento e desaparecimento das coisas, ambas mantêm uma relação de fascínio com o passado e com as noções de testemunho e de memória. Alguns objetos têm uma vida para além da função. Ou porque têm um poder especial que lhes advém da forma, ou porque têm uma energia própria encerrada na matéria de que são constituídos, porque dão corpo a um desejo, vontade ou aspiração. Chamamos-lhes objetos transitivos ou em trânsito. Sendo eles também modestamente ou muito misteriosos, servem, no máximo, para acedermos ou convivermos com o(s) mistério(s) do mundo em que habitamos. Frequentemente, são informes – não têm uma forma reconhecível, não têm corpo, não têm esqueleto ou estrutura – e por isso não podem ser classificados, não têm nome. Outras vezes, são o negativo de uma forma, o resultado de uma transubstanciação, a transformação de uma substância em outra. É o caso dos ex-votos em cera, essa matéria que estabelece ligações entre estados, corpos e coisas. A função votiva da cera é atestada bem antes da Idade Média. O termo ex-voto é a forma abreviada de ex-voto susceptu que significa “em razão de um voto formulado”. Serve de contrato “mágico” em que o homem compromete o seu futuro em troca de uma dádiva: do ut des (eu dou para que tu dês). Os ex-votos podem ser feitos seja em vista da realização de um voto, seja em memória de uma graça obtida, neste caso de uma cura. De natureza muito diversas, podem ser bens alimentares (dons ao guardião do sítio), objetos antigos usados (instrumentos, roupas), ou especialmente criados para celebrar um evento: miniaturas, objetos inteiros (canadianas, cadeiras de rodas...) ou objetos fragmentários que remetem para um mal preciso como aqui o seio ou o coração em cera, representações de uma particularidade patológica, expressões de um sofrimento. Estes fragmentos de corpos modelados em cera, matéria maleável de uma extrema plasticidade, são as marcas da doença, os infortúnios sofridos, conversões do infortúnio em milagre, da doença na cura.
Em todo o caso, há objetos que reunimos, guardamos, expomos ou oferecemos com maior enlevo que outros. São coisas raras, excecionais, estranhas, que nos lembram constantemente a magia do mundo e o milagre da vida. Que se situam entre a celebração da vida e a esconjuração da morte.
Esta exposição é, assim, uma experiência e um processo. Recolhemos objetos e imagens reunidos ou criados por alguns dos notáveis cidadãos da região de Guimarães ou conservados em algumas das veneráveis instituições deste panorama rico e diverso como poucos. Juntámos todas estas coisas no mesmo espaço e, ao longo do período da exposição, por aqui passarão, como uma corrente de ar, falas, discursos, cantares, interrogações, afirmações, testemunhos, exaltações, orações, procissões.
Celebremos a vida no interior do museu, celebremos o lugar em que vivemos!
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Labirinto e Eco
Coleção Permanente e Outras Obras
Com intervenção de Tomás Cunha Ferreira
Todo o ano
Obras de José de Guimarães, Vasco Araújo, Rui
Toscano, Rui Chafes, Pedro Calapez, Otelo Fabião, f.marquespenteado,
Tomás Cunha Ferreira, Ernesto de Sousa, Jarosław Flicinski, Rosa
Ramalho, Franklim Vilas Boas
Com intervenção de Musa paradisiaca e performance de Pedro Calapez
Curadoria: Nuno Faria
“Labirinto e Eco” é o mote da atual montagem da coleção permanente do CIAJG. Durante o período de um ano as salas do piso superior do CIAJG vão acolher um extenso e variado conjunto de intervenções de artistas contemporâneos, convidados a dialogar com os notáveis objetos da coleção de José de Guimarães e outros entretanto reunidos no acervo da instituição. O eco da criação artística propaga-se pelos tempos, numa fascinante e misteriosa viagem que descobrimos com renovado espanto a cada visita que fazemos ao museu, a cada museu. No CIAJG não é diferente. Propomos uma experiência única de visita ou revisitação através do labirinto da história pelo próprio pé do espetador ou pela mão dos monitores do nosso Serviço Educativo.
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