O som é matéria incontornável através do qual se constroem as peças de Geometria Sónica, exposição do 2º ciclo do ano no CIAJG, fruto de uma coprodução entre este museu e o Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas, na ilha de S. Miguel, nos Açores.
Fruto de uma outra coprodução, desta feita com o MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, de Lisboa, onde esta exposição se apresentou inicialmente, em novembro do ano passado, Arquitetura da Vida: Ambientes, esculturas, pinturas e filmes é a primeira grande revisão da obra do artista português Carlos Bunga, radicado desde há uma década em Barcelona.
Geometria Sónica
Energia - Frequência - Forma
Francisco Janes, Mariana Caló e Francisco
Queimadela, Jonathan Uliel Saldanha,
Laetitia Morais, Manon Harrois,
Miguel Leal, Mike Cooter, Pedro Tudela,
Ricardo Jacinto e Pedro Tropa, Sara Bichão, Tomás Cunha Ferreira
29 junho a 6 outubro 2019
A presente exposição é uma versão do projeto que, durante cerca de uma ano, reuniu um extenso conjunto de artistas que trabalharam a partir do contexto institucional do Arquipélago — Centro de Artes Contemporâneas em diferentes plataformas físicas e conceptuais. O projeto reúne artistas portugueses e estrangeiros cujas obras e pesquisas incorporam o som, como material, ou como estrutura conceptual. Todos eles fundam o trabalho numa sólida base de pesquisa e de experimentação. A escolha do elenco baseou-se, em primeiro lugar, na sensibilidade colaborativa e, em segundo lugar, na relação que o trabalho de cada um estabelece com as caraterísticas do arquipélago dos Açores, cuja a origem vulcânica, a ressonância cósmica, a presença intensa e diversa da natureza (enquanto imanência e enquanto sentimento) exerce um forte apelo sobre os mais diversos criadores e pensadores.
Do ponto de vista filosófico, o projeto é influenciado por alguns pensadores que desenvolveram e problematizaram os conceitos de arquipélago, migração e miscigenação, tais como Édouard Glissant (um dos mais importantes e influentes pensadores da contemporaneidade, desaparecido em 2011), que desenvolveu a noção de crioulização cultural; Emanuele Coccia, cujo recente livro “A Vida das Plantas: uma Metafísica da Mistura”, particularmente apropriado para pensar a relação da entidade humana com a entidade natural; Agostinho da Silva, que pensou de forma visionária a questão transatlântica e dos fluxos culturais que se vão desenvolvendo entre continentes e povos; ou, ainda, Vitorino Nemésio, cujo conceito de Açorianidade será central à reflexão engendrada pelo projeto. Trata-se de um projeto que foi concebido para integrar e cumprir as diferentes valências do Arquipélago, quer em termos do espaço expositivo e performativo, quer no que concerne à sua missão (produzir e trazer conhecimento à população da Ilha e do Arquipélago, mas também exportá-lo para outras paragens). É um projeto inovador que explora de forma inédita o maior arquivo audiovisual nacional, o arquivo da RTP, cujo horizonte de existência se confunde com a formação de um sentimento de pós-modernidade e de contemporaneidade em Portugal. É, finalmente, um projeto de criação, realizada a partir da residência na Ilha (ou ilhas), e de apresentação e diálogo com a comunidade. Geometria Sónica pretende tematizar a importância do som na construção da nossa presença no mundo. As sociedades animistas, por exemplo, utilizam desde tempos imemoriais, o som, nomeadamente certos ritmos e frequências, para curar ou para atingir níveis de hiperconsciência. O projeto propõe pensar a relação entre determinados padrões ou frequências sonoras e a criação de estruturas arquetípicas do pensamento e da arquitectura, tais como monumentos antigos edificados em diferentes lugares do mundo. As civilizações antigas construíam a partir da observação do Cosmos e acredita-se que, também, a partir da harmonia e ressonância sonora do Universo. É nesse pressentimento intemporal de que todos os seres são ligados por uma consciência global e coletiva que o projeto agora apresentado se funda.
Curadoria Nuno Faria
Projeto originalmente apresentado no Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas
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Carlos Bunga | Arquitetura da Vida
29 junho a 6 outubro 2019
“O meu projeto é uma espécie de arquitetura; não é um espaço real, mas uma ideia mental.”
As estruturas escultóricas e pictóricas de Carlos Bunga (n. 1976) sugerem a arquitetura como corpo e espaço mental. Carlos Bunga cresceu no concelho de Lisboa e estudou pintura na Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha – uma universidade alternativa e vanguardista onde vários artistas da sua geração estudaram e produziram os seus primeiros trabalhos. A sua obra começou por ganhar destaque em 2004, na Manifesta 5 de San Sebastian, onde criou a sua primeira instalação efémera de grande escala, propositadamente destruída durante a inauguração da exposição. Atualmente, o artista vive e trabalha perto de Barcelona, em Espanha. A exposição começa com uma pequena maquete de habitação social onde o artista cresceu, e que mais tarde viu ser demolida. É o início de uma viagem desde a miniatura ao monumental. A exposição documenta as construções de grande escala que o artista cria e destrói como performance, e é animada por vídeos das suas interações com o mundo material, constituindo a primeira grande retrospetiva da sua obra.
Na sua prática, Carlos Bunga sempre se interessou pelas propriedades do cartão, simultaneamente leve e robusto. Para além de construir espaços, o artista também utiliza este material para criar esculturas de fantásticos habitats e nobjetos domésticos. Estes são apresentados tendo como pano de fundo grandes pinturas monocromáticas. A sua obra combina uma poderosa materialidade com a evocação de estados psíquicos. Encenando ciclos de construção e destruição, Bunga explora condições de despojamento e nomadismo, a natureza da experiência espacial, e o potencial criativo e simbólico da ruína.
Curadoria Iwona Blazwick
Exposição originalmente apresentada no MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia
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