A Morte de Ubu | João Louro
A Morte de Ubo, João Louro
A Morte de Ubo, João Louro
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A Morte de Ubu
João Louro
23 fevereiro a 9 junho


Com A morte de Ubu, figura mítica criada em 1896 pelo escritor Alfred Jarry e cuja proverbial boçalidade a ergueu ao panteão dos anti-heróis da vanguarda, João Louro (Lisboa, 1963) convoca os tempos conturbados do modernismo pré Primeira Grande Guerra, em que a máscara do niilismo e do absurdo foi uma das mais eficazes respostas que artistas e poetas contrapuseram à insanidade do conflito armado que dizimou meia Europa.
Sobretudo focado, nos seus últimos trabalhos, nas subterrâneas relações formais e semânticas entre modernismo e primitivismo, João Louro inaugura com esta intervenção uma pesquisa sobre o conceito de veneno, substância rica em significados e em predicados, para se focar na oposição entre duas conceções antagónicas do mundo: as sociedades contemporâneas, sedimentadas numa crença cega no progresso; as sociedades ditas primitivas ou arcaicas, em voluntário isolamento do mundo contemporâneo, que baseiam a sua existência numa relação de troca e de criterioso equilíbrio com aquilo que a terra oferece e com os outros seres vivos.
Não são raras, nos meios de comunicação atuais, as imagens que mostram povos indígenas brandindo os seus arcos e lançando as suas flechas contra helicópteros ou avionetas que sobrevoam os seus territórios, invadindo e ameaçando os seus modos de vida. Estas imagens dão a medida de uma total desproporção de forças.
O veneno, extraído de plantas ou animais a partir de um conhecimento profundo dos segredos do mundo natural, simboliza aqui a desesperada resistência dos povos indígenas face à sanha colonizadora das sociedades capitalistas, que, na demanda de um futuro que chegue rápido, tudo querem dominar, explorar e, em última instância, destruir.
Em última instância, João Louro fala-nos de duas conceções do tempo e de duas éticas de existência radicalmente diferentes e constrói uma metáfora invertida – espécie de “feitiço que se vira contra o feiticeiro” – que na prática funciona como uma predição: o progresso, outrora erigido como solução para todos os males, é a praga que conduzirá a nossa extinção.

Curadoria Nuno Faria