Carõ - Multidões da Floresta
Carõ - Multidões da Floresta, João Salaviza e Renée Nader Messora
Carõ - Multidões da Floresta, João Salaviza e Renée Nader Messora
Carõ - Multidões da Floresta, João Salaviza e Renée Nader Messora
Carõ - Multidões da Floresta, João Salaviza e Renée Nader Messora
Carõ - Multidões da Floresta, João Salaviza e Renée Nader Messora
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Carõ - Multidões da Floresta
Uma exposição de João Salaviza e Renée Nader Messora
23 fevereiro a 9 junho


Carõ: multidões da floresta propõe um olhar sobre as concepções acerca da morte presentes na cosmologia do povo indígena Krahô, indo ao encontro da potência estética e política das suas representações na mitologia, nos cantos e na vida ritual.
O conceito krahô de carõ é central nesta concepção: “alma” ou “princípio vital” que anima todas as coisas do mundo, refere-se também a reflexos e sombras e, por uma extensão de sentido, recentemente passou a designar fotografias, vídeos e filmes. Palavra polissêmica e que pode receber diferentes traduções, carõ abrange imagens com estatutos ontológicos variados e que, apesar de estarem sempre ligadas a um corpo de referência, podem dele prescindir, agindo no mundo de maneira autônoma.
Quando o corpo adoece ou simplesmente dorme, o carõ das pessoas frequentemente se afasta, indo ao encontro de algum parente já falecido ou saindo para caminhar na floresta e na cidade, perambulação que produz os sonhos. No entanto, se esta separação se prolonga por muito tempo, pode se tornar definitiva e, por consequência, levar à morte: o carõ da pessoa torna-se mẽcarõ, “espírito” ou “duplo” de um corpo humano morto. Os mẽcarõ gostam da floresta, da noite e da escuridão, enquanto os Krahô (leia-se “os vivos”) se concebem como habitantes dos espaços claros e ensolarados. Nas diferentes versões sobre a vida post-mortem, assunto sempre aberto à especulação, a mais comum afirma que o carõ, ao se desligar do corpo humano, sofre outras mortes, transformando-se sucessivamente e assumindo várias formas: animal, planta, pedra, toco de árvore, até virar nada...
Cerca de um ano depois do falecimento, a família do morto se organiza então para realizar o Pàrcahàc, ritual de fim de luto tateado pelo percurso visual e sonoro aqui proposto.
Para os Krahô, que não cultuam os mortos e rejeitam a ideia de herança, este é o momento de romper a relação com o carõ do defunto, despedindo-se da lembrança e da saudade. A palavra que dá nome ao ritual é também elucidativa a esse respeito: enquanto pàr designa a “tora” (tronco), o termo cahàc significa aquilo que “parece mas não é”. Assim, mais do que um símbolo, a tora é o morto, uma “imagem” de seu corpo refeito para ser uma última vez lembrado, chorado e alegrado, antes que seja para sempre esquecido.

O povo Krahô faz parte de um conjunto sociocultural mais amplo, composto por outros seis grupos ameríndios, conhecidos como povos Timbira. Estes povos se autodenominam mẽhĩ ("nossa carne" ou simplesmente “nós, humanos”) e falam línguas de um mesmo conjunto dialetal, pertencente à família linguística Jê. Diferenciam-se de outros povos ameríndios por certas características em comum, tais como a ornamentação corporal e o corte de cabelo, a forma circular de suas aldeias, a prática de correr com toras e um vasto corpus de mitos e rituais.
Antigamente, os Krahô ocupavam um amplo território no Brasil Central, hoje reduzido a Terra Indígena Krahô, demarcada na década de 1940 depois que fazendeiros da região promoveram um massacre, em que mais de 20 indígenas foram assassinados. O último censo (2018) estimou a população krahô atual em cerca de 3500 indivíduos, que vivem em 35 aldeias espalhadas no interior da terra indígena. Este território constitui uma importante área contínua de preservação do Cerrado, bioma que abriga uma enorme diversidade biológica e cultural. O Cerrado é também conhecido como “o berço das águas”, por abrigar as nascentes das principais bacias hidrográficas brasileiras, dentre elas, a bacia Amazônica. Em razão dos interesses do agronegócio e do mercado mundial de commodities, o Cerrado é, atualmente, um dos ecossistemas mais ameaçados do mundo, sendo cotidianamente devastado com a conivência de grande parte da classe política brasileira.
Os Krahô, por sua vez, não percebem o Cerrado e seus habitantes simplesmente enquanto “meio” e “recursos” a serem explorados. Ao contrário, o Cerrado é por eles concebido como uma complexa teia vital composta por humanos, plantas, animais, espíritos e outros sujeitos que pensam, sentem e agem no mundo. Por meio de antiga convivência e intensa interação com estes outros habitantes, os Krahô desenvolveram sofisticados conhecimentos ecológicos, transmitidos através das gerações por meio de narrativas, cantos e rituais. A vida do Cerrado é, assim, indissociável da presença e dos conhecimentos dos povos indígenas, que estão na linha de frente de uma batalha que diz respeito ao planeta como um todo.