2ª Edição Encontros para Além da História
Encontros para Além da História
Encontros para Além da História
Encontros para Além da História Foto © Paulo Pacheco
Encontros para Além da História Foto © Paulo Pacheco
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Encontros para Além da História Foto © Paulo Pacheco
Encontros para Além da História Foto © Paulo Pacheco
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Encontros para Além da História_ Soldier Playing with Dead Lizard_Daniel Barroca
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Encontros Para além da História 2013
Antropologia visual e pós-colonialismo
Sexta 06 e sábado 07 dezembro

Comissariado Eglantina Monteiro e Nuno Faria
Conferencistas Marie-Manuelle da Silva, Ricardo Roque, Teresa Castro e Maria do Carmo Piçarra.
Artista convidado Ricardo Jacinto

Os Encontros Para Além da História reúnem este ano um conjunto de investigadores que no trabalho que desenvolvem tomam a imagem como matéria do discurso ao invés de a utilizarem como ilustração para a construção teórica. Os filmes apresentados e a performance de Ricardo Jacinto completam o programa.
A pertinácia do olhar antropológico para a implementação no terreno das políticas coloniais – “conhecer para intervir e dominar” –, resultou numa intensiva e extensiva produção antropológica, fundadora da antropologia moderna; paradoxalmente, este olhar veio a revelar-se, na era pós-colonial, incontornável para ler a pluralidade do mundo. O método antropológico tornou-se assim uma ferramenta fundamental também para a arte contemporânea. Para além disso, a antropologia e a arte contemporâneas partilham das mesmas inquietações, cruzam-se em diálogos e, finalmente, são “adisciplinares” ao deixarem-se levar pelas questões que o mundo coloca.


Sinopses das intervenções

Marie-Manuelle da Silva
Mapeando as narrativas da memória na banda desenhada “pós-colonial francófona”: notas para itinerários interdisciplinares
O universo da chamada “banda desenhada pós-colonial francófona” surge como um exemplo de criação contemporânea onde se pode observar uma constelação de representações, imaginários e pontos de vista Outros e dos Outros, manifestando uma variedade de descentramentos, desvios e contrapontos à «modernidade ocidental». Propomos percorrer geografias, temporalidades e poéticas diversas para pensar a banda desenhada com um arquipélago de narrativas e lugares de enunciação contemporâneos complexos, nos quais se articulam e (re)configuram dispositivos formais e modalidades da presença e ausência de memórias, arquivos e (H)histórias.

Ricardo Roque
Horrores luso-tropicais: violência, colonialismo e a dança do lorosa’e em “Timor Português”
No início da década de 1950, restabelecida a administração colonial após os anos dramáticos da ocupação japonesa, a remota colónia portuguesa de Timor motivou um interesse inusitado por parte de governantes e cientistas da metrópole. Em 1952, o então chamado “Timor Português” foi visitado pelo Ministro do Ultramar. Um ano mais tarde, aterrou no território o núcleo de cientistas metropolitanos que viria a formar a chamada “Missão Antropológica de Timor”, sob o patrocínio do governo local e da Junta de Investigações do Ultramar. A estas visitas esteve associada a produção de um conjunto de fotografias e filmes. No cruzamento entre registo antropológico e propaganda colonial, estes registos visavam documentar a diversidade da vida em Timor, desde os costumes tradicionais, à ação colonial, ou aos cerimoniais efusivos de receção dos europeus na passagem pelos distritos. Entre os filmes produzidos encontram-se vários registos sobre a dança guerreira designada em Timor por rito ou dança do lorosa’e. Por tradição, esta era a cerimónia que os guerreiros timorenses celebravam no passado, quando, ao regressarem de guerras vitoriosas, traziam consigo as cabeças decapitadas dos inimigos. Esta comunicação reflete sobre a história e o significado destas performances rituais. Partindo de registos visuais dos anos 50 e 60, é meu objetivo interrogar a presença dessas ritualizações timorenses da violência no coração selvagem do império e da linguagem luso-tropicalista.

Maria do Carmo Piçarra
Azuis ultramarinos: imagens-clarão do colonialismo português no cinema
Um contributo para a reflexão sobre como, durante o Estado Novo, Portugal "imaginou" a política colonial através do cinema e como este traduziu ou "criticou" reconfigurações ideológicas. Nesse âmbito, analisa-se monadas das series de atualidades cinematográficas de propaganda do regime Jornal Português (1938-50) e Imagens de Portugal (1953-70), produzidas sucessivamente pelo SPN/SNI/SEIT, contrapondo-lhes outras de três filmes de autores, nascidos ou radicados nas colonias, censurados: Catembe (1965) e Deixem-me ao menos subir as palmeiras... (1972), filmados em Moçambique por Manuel Faria de Almeida e Joaquim Lopes Barbosa respetivamente, e Esplendor selvagem (1972), realizado em Angola por António de Sousa. Olho ainda para o modo como o cinema se quis assumir como um olho da liberdade em obras militantes, com uma perspetiva crítica ao regime salazarista, como Monangambé (1968) e Sambizanga (1972), de Sarah Maldoror. Como é que as atualidades filmadas de propaganda - um subgénero jornalístico híbrido projetado em cinemas da metrópole e das colónias antes da longa-metragem de ficcão - olharam o "modo português de estar no mundo"? E como e que esse olhar cinematográfico se (con)formou em função da ideologia do regime? Por outro lado, quando emerge a geração do Novo Cinema, quais as evidências da (im)possibilidade de um olhar disruptivo, quanto ao memorial fílmico constituído, em obras de autor proibidas?

Teresa Castro
Transparência(s) e opacidade do discurso colonial: em torno de “Tarzan, o Homem Macaco” (1932)
Em 1932, a MGN inicia a sua série de adaptações em torno de Tarzan com o filme Tarzan, o Homem Macaco. Realizado por W. S. Van Dyke, este primeiro filme contém uma das raras sequências da série integrando imagens de “verdadeiras” tribos africanas: uma série de planos, realizados por Van Dyke na região dos Grandes Lagos em 1931, filmadas em transparência num estúdio californiano um ano depois. Neste contexto, a utilização da retroprojeção é especialmente interessante, remetendo não só para uma estratégia de objetivação e espetacularização do “Outro”, mas também para uma verdadeira política do espaço e do tempo. A partir duma análise detalhada deste caso exemplar (e da evocação de outros exemplos) tentaremos expor a natureza discursiva destas representações (entre o “Outro” exótico e o “Outro” colonial) e a dimensão opaca (ou reflexiva) das transparências no cinema.

Ricardo Jacinto
Obras Escolhidas (primeira aproximação): concerto para violoncelo e objetos amplificados
Manipulação sonora de um grupo de objetos da Coleção de José de Guimarães, reativando-os como extensões instrumentais de uma performance musical. A gravação sonora dessas ações e a sua sobreposição e difusão em tempo real, criará uma paisagem sonora sobre a qual o violoncelo intervirá, recontextualizando os traços sonoros desse "encontro”.

Alinhamento das Sessões:
Dia 5 de dezembro, quinta-feira
Local: Blackbox CIAJG
09h30 Introdução (Nuno Faria) | Contextualização (Eglantina Monteiro)
10h00 Palestra #1 | Marie Manuelle da Silva
11h15 Pausa p/ café
11h45 Palestra #2 | Ricardo Roque
13h00 Interrupção para almoço
15h00 Palestra #3 | Maria do Carmo Piçarra
16h15 Pausa p/ café
16h45 Palestra #4 | Teresa Castro
18h00 Encerramento da Sessão + lançamento do debate para dia seguinte
19h00 Jantar
21h45 Sessão de Cinema | selecção de Maria do Carmo Piçarra

Voyage en Angola, 1929, Marcel Borle
Mudo, p&b, 55'
Em Janeiro de 1931, um cineasta amador suíço, de seu nome Marcel Borle (1895-1983), realizava em Paris uma conferência intitulada “Comment j’ai tourné mon premier film” (“Como realizei o meu primeiro filme”). Alguns anos antes (1928-1929), Borle havia acompanhado o seu pai e três outros seus compatriotas naquela que ficou conhecida como a primeira missão científica a Angola, tendo realizado um filme, Voyage en Angola […]. Voyage en Angola começa por uma evocação impressionista do trajeto que conduziu os quatro suíços da Europa até África. Um cartão precisa, aliás, que o filme é apenas “um simples ‘diário de viagem’” onde foram sucessivamente anotadas algumas ‘impressões’”. Mas o “simples diário” de Borle é, na verdade, um exercício refletido sobre a fotogenia das imagens e a composição fílmica, pontuado de alusões e de referências cinematográficas. Na primeira parte, tanto as imagens em movimento do comboio (e dos seus trilhos) como as imagens dos reflexos da água recordam experiências vanguardistas às quais Borle parece ter sido particularmente sensível. As imagens rodadas em “Terras de África” (essencialmente no Sul de Angola) dão continuidade ao que se propõe ser mais uma experiência do olhar do que uma visita de estudo. Vistas das paisagens, da flora e do acampamento, cenas de danças, retratos e caçadas ao hipopótamo são encaradas por Borle como pausas convidando o viajante-espetador a olhar: “agarrando a sua atenção, os indígenas, as flores, os animais, contribuirão para reforçar o seu desejo de ver ainda mais, de ir ainda mais longe, lá onde tudo será ainda mais belo ... talvez”. Ainda que profundamente alterada pela sua experiência no terreno [...], a composição do filme é, para Borle, um elemento essencial e a “viagem” enquanto fio condutor encontra-se presente ao longo da totalidade do filme. No final, “imagens-recordação” da expedição sucedem-se em montagem alternada a planos do mar, supostamente realizados durante a viagem de regresso. A qualidade das imagens e dos movimentos de câmara vêm apenas confirmar a profunda sensibilidade cinematográfica de Borle.
Texto: Teresa Castro

Dia 6 de dezembro, sexta-feira
Local: Espaço Expositivo + sala de conferências CIAJG
10h00 Reinício dos trabalhos no espaço expositivo: leituras das obras Soldier playing with dead lizzard, do artista português Daniel Barroca, e Flash in the Metropolitan, da dupla Rosalind Nashashibi e Lucy Skaer.
11h15 Pausa p/ café
11h45 Recomeço dos trabalhos
13h00 Interrupção para almoço
15h00 Exibição dos filmes Streets of Early Sorrow de Manuel Faria de Almeida e Monangambé de Sarah Maldoror. Sessão conjunta de debate.
16h15 Pausa p/ café
16h45 Encerramento dos Encontros Para além da História-2013
19h00 Jantar
21h45 Obras escolhidas (primeira aproximação): concerto para violoncelo e objectos amplificados | Ricardo Jacinto

Biografias
Nuno Faria
Diretor artístico do Centro Internacional das Artes José de Guimarães e curador da exposição Lições da Escuridão. Entre 1997-2003 e 2003-2009, trabalhou no Instituto de Arte Contemporânea e na Fundação Calouste Gulbenkian, respectivamente. Viveu e trabalhou no Algarve entre 2007 e 2012 onde, entre outros projectos, fundou (em Loulé no ano de 2009) o projecto Mobilehome - escola de arte nómada, experimental e independente.

Eglantina Monteiro
Eglantina Monteiro, antropóloga vive e trabalha em Castro Marim onde dirige a Companhia das Culturas. Tem desenvolvido trabalho na área da antropologia da arte com trabalho de campo na Amazónia brasileira, Bijagós, Guiné Bissau e Serra do Caldeirão, Algarve.

Marie-Manuelle da Silva
Marie-Manuelle da Silva é doutorada em Didáctica das Línguas e das Culturas e Culturas francófonas (Universidade de la Sorbonne Nouvelle e Universidade do Minho). É atualmente Professora Auxiliar Convidada no Departamento de Estudos Românicos, investigadora no Centro de Estudos Humanísticos da UM e investigadora associada ao laboratório DILTEC (Sorbonne Nouvelle, Paris 3). O seu trabalho debruça-se essencialmente sobre o ensino das línguas e culturas no âmbito das “novas humanidades” e da globalização, e sobre as representações e (re)configurações contemporâneas nos contextos ditos pós-coloniais e transnacionais.

Ricardo Roque
Ricardo Roque é Investigador Auxiliar no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Presentemente, é também Honorary Associate no Departamento de História da Universidade de Sidney. Tem-se especializado em antropologia histórica, estudos sociais da ciência, história da antropologia e estudos pós-coloniais, com especial enfoque em Timor, Goa e Angola no período do imperialismo português tardio. Projectos recentes incluem o estudo do mimetismo colonial e da ciência racial no mundo de expressão portuguesa durante os séculos XIX e XX. É autor de Headhunting and Colonialism (Palgrave, 2010) e Antropologia e Império (ICS, 2001); e co-organizador de Engaging Colonial Knowledge (Palgrave, 2012) e Objectos Impuros (Afrontamento, 2008).

Teresa Castro
Historiadora e teórica do cinema e das imagens, Teresa Castro é Professora associada na Universidade de Paris 3 – Sorbonne Nouvelle. O seu trabalho concentra-se nas culturas visuais da modernidade e nas relações entre cinema e arte contemporânea. Em 2013, trabalhou como curadora associada da exposição Vues d’en haut, Centre Pompidou Metz.

Maria do Carmo Piçarra
Maria do Carmo Piçarra e jornalista, critica e programadora de cinema, investigadora do Centro de Investigação de Media e Jornalismo (CIMJ/UNL) e professora de Politicas Públicas Culturais no ISCTE/UL. É doutorada em Ciências da Comunicação e, entre outras publicações, e autora de "Salazar vai ao cinema. O 'Jornal Português' de actualidades filmadas (2006) ", "Salazar vai ao cinema 2. A 'Politica do Espirito' no 'Jornal Português'" alem de ter coordenado "Angola, o nascimento de uma nação. Vol. 1. O cinema do império" e "Angola, o nascimento de uma nação. Vol. 1. O cinema da libertação" (2013). Co-edita a ANIKI - Revista Portuguesa da Imagem em Movimento.

Ricardo Jacinto
Estudou escultura e artes plásticas no AR.CO. É licenciado em arquitetura, FAUTL. Estudante na School of Visual Arts /Nova Iorque, estudou música no Hot Clube de Portugal e Academia de Amadores de Música de Lisboa. Actualmente é aluno no Sonic Arts Research Center / Belfast. Desde 1998 tem apresentado o seu trabalho em exposições, concertos e performances em Portugal e no estrangeiro. Tem desenvolvido uma intensa atividade de colaboração com outros artistas plásticos, coreógrafos, músicos e performers. É membro fundador da OSSO- associação cultural.

Fichas técnicas dos filmes exibidos no dia 6: selecção de Maria do Carmo Piçarra
Streets of Early Sorrow, 1963, Manuel Faria de Almeida
som, p&b, 8'
Inglês s/ legendas

Um homem percorre as ruas de Londres. Encontra-se com uma jovem no jardim mas não consegue esquecer-se das imagens e memórias de uma outra vida e de um outro amor, na África do Sul, a que o Massacre de Sharpeville pôs um fim brutal. Documentário de ficção realizado por Manuel Faria de Almeida na London School of Film Technique, em 1963, ganhou o primeiro prémio no Festival Cinestud de Amesterdão, para onde a escola o enviou. Chris Marker e Agnès Varda (e muito particularmente Cléo de 5 à 7) são as influências visuais na realização do mesmo.
Na sequência do prémio, Faria de Almeida recebeu um convite para trabalhar na Secção de Cinema das Nações Unidas e para trabalhar como assistente de realização de Tony Richardson, convites que não pôde aceitar porque a sua condição de bolseiro do Secretariado Nacional da Informação obrigou-o a regressar a Portugal para trabalhar no cinema português durante pelo menos três anos. Streets of Early Sorrow fez o circuito dos cineclubes do Reino Unido como complemento a A Dama de Xangai, de Orson Welles, e nunca foi projectado em Portugal.
Texto: Maria do Carmo Piçarra

Monangambé, 1968, Sarah Maldoror
som, p&b, 11'
Francês s/ legendas

Monangambé representa o desconhecimento da cultura angolana pelos portugueses e o tratamento a que os prisioneiros políticos eram sujeitos. Após uma sequência inicial em que vários homens são transportados até uma prisão, mostra a visita de uma mulher (Elisa Pestana) ao companheiro. Enquanto se tocam e abraçam, a mulher sussurra algo que faz com que o guarda (Mohamed Zinnet) os afaste e leve Matesso. Na sala do diretor, dominada por um retrato de Salazar, o guarda relata a situação ao superior – fala-se, com suspeita, do “fato completo” que a mulher de Matesso referiu – que manda revistar as coisas trazidas por ela. Apenas roupa e uma panela com comida. A frustração crescente do guarda é dirigida para o prisioneiro. Na solitária, Matesso mantém uma conversa com um lagarto, do lado de fora das grades, ao sol. A sequência foi assumida por Maldoror como metáfora da solidão total. Posteriormente, Matesso é interrogado, sob o olhar sem vida do ditador português, e sucumbe, fisicamente, à tortura. Durante todo o filme, e exceto quando se escutam escassos diálogos em francês, o jazz avant-garde do Art Ensembe de Chicago é dilacerante, potenciando a perturbação e as sensações de claustrofobia e desespero criadas por Maldoror.
Texto: Maria do Carmo Piçarra