Jorge Feijão | Mundus, mundi
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Jorge Feijão
Mundus, mundi

10 março a 10 junho 2018


"Mundus, mundi" é uma instalação constituída por 16 painéis em papel que, na linhagem da tradição da pintura religiosa da Idade Média, se apresenta como um políptico, um grande retábulo com imagens de diferentes proveniências que entre elas articulam uma narrativa. O Gabinete de Desenho do CIAJG, onde desde a primeira hora se apresentam várias declinações do desenho, vê-se agora, pela mão de Jorge Feijão, transformado num verdadeiro gabinete de desenho, isto é, uma estrutura proto-museológica onde se pode aceder a uma grande quantidade de representações gráficas dispostas sobre as paredes de uma sala fechada. Um gabinete de desenho não é propriamente um arquivo (com documentos visuais ou escritos), é antes um atlas de imagens que encerra um sentido de totalidade: os mundos do mundo ou o mundo no mundo. O título da presente instalação hesita entre a redundância semântica de duas palavras — mundus e mundi — que são praticamente sinónimos, e a ambiguidade de significado que juntas engendram. Se mundus remete para o mundo, o universal, o globo, o céu, ou o mundo habitado, mundus, mundi reenvia para artigos de higiene pessoal (especialmente femininos), ornamentos ou enfeites. Jacques Derrida, filósofo francês, destaca a proximidade com a palavra grega Cosmos, que também significa o mundo e remete para arranjo ou decoração cosmética. Estamos, assim, perante uma obra ampla e complexa, que aspira romanticamente à totalidade do mundo, de todas as coisas, nobres ou pobres, sublimes ou sujas, voadoras ou rastejantes, o mundo como no primeiro dia do Génesis, através da junção das partes. Uma espantosa cosmogonia em desenho — no sentido de que traz consigo o espanto do homem perante o mundo e todas as suas espécies; que reenvia para o aparecimento do desenho, na infância da humanidade, e no modo como, para o homem, desenhar vem trazer clarividência ao mundo numa altura em que as coisas e os seres não se distinguiam uns dos outros, o homem não se distinguia do animal, a criança do adulto, em que as coisas ainda não tinham nomes.  Não é estranho, por isso, que esta instalação, que na realidade funciona como um ambiente pictórico que submerge o espectador numa dimensão espácio-temporal muito particular, integre grandes desenhos constituídos por pequenas folhas de papel desenhadas individualmente (algumas delas desenhadas por crianças do ensino básico), coladas posteriormente e redesenhadas de seguida. As partes que constituem o todo ou uma representação do todo irrepresentável, "Mundus, mundi" mostra-nos como o desenho, enquanto linguagem gráfica sem palavras nos pode oferecer, no sentido de traduzir, o incomensurável mundo da imaginação.