Stefano Serafin | Arte em Estado de Guerra
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Stefano Serafin | Arte em Estado de Guerra
Integrado na remontagem da coleção permanente e outras obras "Cosmic, Sonic, Animistic"


As fotografias de Stefano Serafin (1862-1944) que retratam a destruição das esculturas de Antonio Canova em 1917, durante a Primeira Guerra Mundial, têm um forte impacto tanto na história fotográfica da reprodução de obras de arte como na história dos próprios objetos. Estas fotografias representam o limite da destruição a que ficaram sujeitas estas obras de arte. Elas já não representam as esculturas de António Canova. A reconstrução das obras por parte do conservador da Gipsoteca desde 1891, Stefano Serafin, obrigou à assunção destes objetos não como artefactos únicos, mas antes enquanto objetos sujeitos a transformações. Invocando as várias fases do processo criativo de Canova que originaram as diversas reproduções em gesso existentes na Gipsoteca de Possagno (Veneto), Serafin reconstruiu a maior parte dos gessos a partir das correspondentes esculturas em mármore. Ao fazer moldes das obras em mármore para recuperar os gessos, Serafin reverteu a hierarquia de alguns objetos, uma vez que transformou aqueles que eram considerados como modelos originais em cópias. Mas estas inversões chamaram atenção para a complexidade dos processos reprodutivos desenvolvidos por Canova, na elaboração de originais.
As suas fotografias captaram a “aura” dos gessos de Canova. Embora a ideia de facsimile seja primordial para a tecnologia reprodutiva em gesso, o restauro provou identificar melhor os processos transformativos pelos quais as obras de arte passaram. Os restauros de Serafin ajudaram a recuperar o domínio da tradição da escultura, perdido no acesso às obras de arte através de reproduções fotográficas. No entanto, no presente caso, mais do que destruídos, estes gessos tornaram-se autónomos. As fotografias de Serafin não são autorais e seguramente não procuram esteticizar a brutalidade da guerra; em vez disso, revelaram a capacidade do meio fotográfico se inventar. A fotografia, também ela reprodutiva, evidencia a capacidade de se distanciar do objeto de arte em si mesmo, para o documentar tal como ele se encontra num determinado espaço e tempo. Se a fotografia era considerada um meio de preservação da destruição das obras de arte desde a sua origem, as fotografias de Serafin são como o retrato de Dorian Gray, que envelhece enquanto os gessos mantêm a sua aparência através de sucessivos restauros. Como consequência do seu valor documental, o museu condenou estas fotografias à invisibilidade. Alguns dos negativos de vidro de Stefano Serafin sobreviveram à Segunda Guerra Mundial e ao desinteresse institucional pela reprodução fotográfica. Hoje, eles próprios no seu limite de sobrevivência, são os últimos registos materiais dos gessos originais de António Canova e o seu valor imagético torna visíveis os processos da história que a obra de arte esconde.

Curadoria Paula Pinto